segunda-feira, 27 de abril de 2026

Cuidados... muitos cuidados...

No último post falei da nossa 'corrida' para dar entrada na Enfermagem Pediátrica da Santa Casa que começou as 18h e terminou depois das 2h da manhã!

No quarto tinha um menininho de uns 4 anos, com um vírus no coração... já estava internado há 3 meses... e um bebezinho, com pneumonia.

Logo que chegamos, duas enfermeiras vieram, dizendo que ele precisaria fazer alguns exames... colocaram na cama uma maleta enorme e começaram a colocar um monte de vidrinhos numa mesinha... gente... era tanto vidrinho de formato e tamanho diferente... fiquei assustada... um dos exames era a tão famosa gasometria!
Falei sobre o problema que ele tinha tido na UPA... e enfermeira se negou a fazer a gasometria na virilha. Disse que faria no pulso, que era só ele ficar quietinho.
Elas foram super gentis com ele, ele ficou conversando, elas fizeram tanto a coleta de sangue como a gasometria, e ele nem reclamou.
Elas avisaram que um enfermeiro viria pegar ele, pois ele teria que fazer um RX(por conta daquela reclamação de dor nas costas que deu início a toda nossa jornada). Uns minutos depois veio um enfermeiro e fomos fazer o exame. Todos foram super gentis. Voltamos para o quarto por volta das 4h... ele apagou de tão cansado.

Agora vou falar de forma resumida dos próximos dias, pois eles foram meio que repetidos e bem mais simples...

Na manhã seguinte, um grupo de estudantes apareceu... e isso acontecia todos os dias de manhã...

Era muito engraçado, pois todos queriam saber quem era o menino da diabetes!

Depois a nutricionista disse que não era comum uma criança dar entrada na enfermaria com diabetes, tanto que eles não tinham nada integral ou diet. Tudo tinha que ser pedido especialmente para ele.

Um dos residentes, Dr. Vinícius Kenji Kurokawa, um japonês muito simpático, ficou responsável pelo caso dele.
Um verdadeiro amor de pessoa. Me esclareceu um monte de dúvidas sobre o estado real dele, e foi o primeiro a falar para mim sobre contagem de carboidratos e a possibilidade mais que real do Ryü ter uma vida super normal.
O Dr Vinícius vinha todo dia bem cedinho, antes dos outros, via os sinais vitais do Ryü, conversava, perguntava com ele tinha passado a noite, anotava todos os dados que eu anotava durante a madrugada e ficava um tempo conversando com ele.

Teve uma vez que uma médica veio com um grupo de alunos para aprender como ouvir o pulmão... o Ryü ficou super feliz de ajudar na aula.
Os residentes ficaram super animados conversando com ele.

Numa outra ocasião uma médica foi ensinar como aplicar insulina... local correto, como posicionar a seringa... e novamente o Ryü ficou encantado de ser a 'cobaia' da aula.

As enfermeiras foram simplesmente maravilhosas... sempre muito cuidadosas... não eram 'melosas' como as da UPA, mas eram prontas para ajudar a qualquer momento.

Harumi Kawakubo

terça-feira, 21 de abril de 2026

Hora da mudança!

Engraçado como o tempo passou que eu nem percebi... parecia que estava há anos naquele quarto... mas tinham passado só 7 dias...
Só que eram 7 dias numa procura infinita por uma vaga de UTI pediátrica, que não resultava em nada!
Nada de vaga na UTI Pediátrica... e nós lá... esperando...

Não tenho o que reclamar com o pessoal da UPA, muito pelo contrário.
Todos foram incríveis. As enfermeiras eram super atenciosas e carinhosas, em especial a enfermeira Roberta e a enfermeira Sol, que estavam sempre vindo ver como ele estava e conversando com ele, ele ficou apaixonado por elas.
A moça da comida, então, que sempre deixava sobremesa extra e suco extra para ele. Todos mimaram bastante ele... mas queríamos mesmo, era estar em casa!

Aí, depois de 7 dias... um menino deu entrada para internação... não sei exatamente o que ele tinha... mas... 2h depois ele conseguiu vaga!
Não era de UTI, era de enfermaria... mas conseguiu uma vaga!

Ok... preferi não falar nada...

1h depois uma menina deu entrada, devia ter uns 4 anos, pneumonia... 3h depois ela estava sendo transferida!
Novamente... não era UTI, era enfermaria... mas ela foi transferida!

Respirei fundo... pensei que esse seria o sinal de que logo iríamos para casa!

Mas a enfermeira Roberta, que estava de plantão naquele dia, deu um surto na central de vagas... achou um absurdo o que tinha acontecido... nisso, o médico que atendeu o Ryü no dia que ele chegou, veio nos ver, perguntou porque ainda estávamos lá... viu o Ryü... os exames... e disse que iria resolver o problema.
Mudou a prioridade dele de UTI para ENFERMARIA.

3h depois a enfermeira Roberta veio nos dar a notícia... tínhamos uma vaga na Santa Casa e seríamos transferidos em poucas horas.

Nos despedimos das pessoas que nos trataram tão bem, e preparamos tudo para nossa 'mudança'!

Certo... não foi em poucas horas... demorou bastante... o que nos deixou super ansiosos...
Os enfermeiros da ambulância chegaram bem na hora em que eu estava dando a janta para o Ryü.
Mas eles foram super pacientes... falaram que não precisávamos ter pressa, que eles iriam esperar ele acabar de jantar.
Janta devorada, eles foram super legais, conversando o tempo todo com o Ryü, colocaram ele na maca e fomos para a ambulância.

Eu nunca tinha nadado de ambulância... e digo... é bem desconfortável!
O Ryü estava super bem preso, estabilizado. Eu tinha que me segurar e segurar a mochila... o cinto não prendia direito. A ambulância balançava pra caramba...
Pegamos um horário horrível... o trânsito estava péssimo... um congestionamento do cão!
E aí eu vi o quanto as pessoas são estúpidas... a ambulância tocando, e eles não abrem caminho... um carro ainda passou na frente e quase causou um acidente!

Antes, sempre dei prioridade para passagem de qualquer veículo de socorro... nunca sabemos quem está lá dentro e o quão grave é a situação... agora, mais que nunca, a passagem deles é prioridade total!

Chegamos na Santa Casa perto das 20h...
Aí começou a confusão, pois não tinham informação para a entrada dele... ficamos em pé, esperando por mais de 2h... era um diz que me diz... um pergunta que pergunta... e nada era definido.
Uma enfermeira chegou a dizer que iriam mandar ele de volta para a UPA, mas uma outra disse que não, pois tinham que achar o pedido da internação.

Depois de esperar um tempão, colocaram ele numa cama minúscula... praticamente um berço... quando fizeram o Dextro nele, estava mais de 200... e com toda a lógica... o problema é que o plantonista da Enfermaria Pediátrica disse que não iria recebê-lo até que a glicemia dele baixasse...

É... ridículo... ele havia sido transferido para ser cuidado, e quem deveria cuidar dele não queria o 'B.O'...

Ele começou a chorar, pois estava desconfortável, estava cansado, queria dormir... já tinham aplicado insulina 2 vezes e a glicemia não baixava... eu dava água... ele ia no banheiro... colocaram soro... até que uma enfermeira muito boazinha perguntou se ele estava com dor, pois viu que ele estava chorando.
Expliquei que ele estava cansado... que estava desconfortável numa cama que era super pequena para ele... ela colocou ele em outra cama, maior... disse que ficaria ao lado dele... pois bem... eram mais de 2h da manhã... a glicemia baixou... e a Enfermagem aceitou a entrada dele... finalmente!

Harumi Kawakubo

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Superando obstáculos!

No post anterior eu disse que Ryü estava internado na própria UPA, pois os hospitais não tinham vaga de UTI Pediátrica.
O pior momento foi quando uma médica muito boazinha veio conversar comigo... disse que os resultados dele diziam que ele estava muito cansado... que o corpo estava se desgastando muito, mesmo com ele estando só dormindo, e que isso estava prejudicando a melhora dele... que se os próximos resultados se mantivessem ruins... eles teriam que entubar ele!
Foi muito difícil ouvir isso, mas eu só pedi uma coisa: "Salva o meu filho!"

Não vou mentir... eu só pensava: O que eu fiz?

Natal e Ano Novo tinhamos comido muita coisa 'pesada'.
Em Janeiro veio o aniversário de 1 ano da Yuriko... no dia do aniversário e a festinha no buffet.
No começo de Fevereiro foi o aniversário dele... ele pediu um bolo de brigadeiro bem grande e brigadeiros diferentes... ele nunca pede nada... não achei problema nenhum em fazer isso para ele... encomendei tudo e fiz um festão para ele(mesmo sendo só para nós de casa mesmo).
Depois veio a Páscoa... ele pediu para a minha Irmã um ovo de doce de leite... ela fez... ele nunca pede... realmente não vimos problema nenhum.

Ele nunca foi de comer doces... eu nunca deixei... sempre fui super regrada com a alimentação dele... ele dificilmente comia um chocolate ou uma bala... era só fruta, legumes... tudo super natural... tudo tão controlado...
Como isso poderia ter acontecido?
O que eu tinha feito de errado?

O resultado dos exames vieram. A médica veio feliz. Disse que o perigo estava descartado. Que os resultados estavam ótimos... ele não precisaria ser entubado... agora seria apenas terminar de cuidar da infecção(que já estava bem fraquinha) e abaixar a glicemia(que ainda estava alta).

Acho que foi no terceiro dia, um dos bebezinhos recebeu alta, pois já tinha melhorado. E assim fomos para o quarto. Lá era mais restrito que a enfermagem, ele conseguiria descansar melhor.

Ele ainda mais dormia do que ficava acordado. numa das vezes que ele acordou, disse que estava com saudade do Sr Fofinho, a naninha dele. Pedi para minha Irmã trazer. Pedi também o celular dele, para ver se ele se animava de ficar um pouco mais tempo acordado... mas não deu muito certo no começo... ele ainda estava cansado... dormia bastante tempo.

Eu ficava ali... cuidando dele dia e noite... ajudando as enfermeiras no verificação de pressão... acompanhando o horário das verificação de glicemia(que já não estavam mais de hora em hora)...

Ele foi melhorando... mas a glicemia não baixava de forma alguma... a única vez que baixou... baixou muito e eu tive que dar um doce de leite para ele!

O outro bebê que estava no quarto também recebeu alta... e ficamos só nos dois no quarto.

Era difícil... ele precisava de uma vaga de UTI Pediátrica... e não tinha vaga em nenhum lugar...

As professoras da escola tentaram ajudar, tentando os contatos que tinham...
Ele recebeu cartinhas dos colegas da sala e da professora... isso foi extremamente especial para ele.

Um dos exames que ele tinha que fazer, infelizmente com certa frequência, era a gasometria... e para quem não sabe é um exame de sangue que mede a quantidade de oxigênio, dióxido de carbono e PH do sangue... só que o sangue não sai das veias mais superficiais, como no hemograma normal, e sim das artérias, que estão super perto dos dos músculos(que é cercado de terminações nervosas), e por esse motivo é um exame extremamente doloroso. A agulha entra quase que inteira para chegar onde tem que chegar... ele já estava tão 'furado', que não tinha mais como achar lugar para fazer a gasometria no pulso ou no braço... começaram a fazer na virilha...

Ele já não chorava mais... só falava que sabia que era para o bem dele, e ficava quietinho...


Harumi Kawakubo

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Nasce um docinho...

No post anterior eu disse que tinha levado o Ryü na UPA, e mal saímos da triagem e ele desmaiou...
Sério... naquela hora, uma criança de 35kg ficou com 100kg... eu não conseguia segurar ele.
Um rapaz veio, sei lá de onde, e me ajudou a segurar ele. Uma mulher que estava do lado começou a gritar, pedindo ajuda. Logo veio uma enfermeira, que trouxe uma cadeira de rodas. O rapaz me ajudou a colocar ele na cadeira, fomos correndo para o consultório.
O médico estava atendendo, a enfermeira disse que era emergência. Ele terminou o entendimento e mandou a gente entrar. Expliquei o que tinha acontecido nos últimos dias e o porque estava lá.
Ele disse para ir até a enfermagem, ele iria fazer um exame de sangue e um RX para descobrir de onde era a dor.
Na enfermagem tinha um menino internado, água no pulmão, então não tinha uma cama para ele ficar, ele ficou numa maca. O médico veio correndo falar com a enfermeira e pediu um Dextro, eu não tinha ideia do que era isso.
Eles fizeram o hemograma nele, e a enfermeira usou o aparelhinho(glicosímetro) para fazer o exame. Ela saiu correndo. Senti que algo estava errado, mas minha preocupação era ele, que já tinha despertado, mas estava bem aéreo.
O médico veio correndo, me perguntou há quanto tempo ele era diabético!
"Ele não é diabético!"
Foi o que eu respondi na hora.
"É sim, ele está tendo uma crise de cetoacidose diabética gravíssima! Ainda bem que você trouxe ele agora!"
Só perguntei se ele iria ficar bem... o médico disse que sim... mas que teria que ficar internado.

Mas surgiu um problema... não tinha vaga de UTI em lugar nenhum!
Na enfermagem já tinha o menino com água no pulmão, e na outra sala tinha dois bebês com broncopneumonia. Todos esperando transferência para um hospital, mas não havia vaga em lugar nenhum!!
Ele teve que ficar na maca, na própria enfermagem.

Foi uma sequencia infinita de exames e mais exames...
Escutei a enfermeira falando para a outra que a glicose dele estava em 490. Eu não tinha muita noção, mas sabia que o normal é estar perto de 100(meus Pais são pré-diabéticos).
Aquela noite foi enorme... as horas não passavam... o resultado do primeiro exame de sangue veio, só ouvi a enfermeira falar "meu Deus... 790".
Sim... a glicemia dele, no exame de sangue, estava em 790!

No dia seguinte o menino que estava com água no pulmão conseguiu transferência para a Santa Casa. O Ryü foi colocado na cama.

Agora de forma resumida...
Ele fazia exame para verificar a glicose a cada 1 hora... estava tomando inúmeros remédios, para parar a infecção, baixar a glicemia, e para reidratação.
Ele estava completamente fora de si... não falava nada com nada... mal ficava acordado... e quando ficava acordado, falava coisas sem sentido... falava de monstros... de bichos querendo pegar ele... via coisas nas paredes... teve que ser amarrado na cama, pois tentou duas vezes arrancar os acessos...
Harumi Kawakubo